quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Zanzibar, Setembro 2018 - in paradisum II

No dia em que chegámos ao lodge, deram-nos uma lista das excursões que eles organizam. Nós fizémos um grande manguito interior porque, via internet, já tínhamos contratado directamente um guia local.

A primeira passeata com ele era anteontem. Mandou um motorista buscar-nos e depois fomos recolhê-lo e à paparoca para o almoço, também fornecida por ele.

Com tanta tecnologia, mail pra cá, WhatsApp pra lá, tinha-o imaginado mais jovem. Apresentou-se de barba grisalha e logo me infundiu um instintivo respeito.

Começou por nos mostrar a vila onde mora e fez questão de nos levar a sua casa. A minha expressão habitual, numa situação destas, seria 'que grande murro no estômago'. Mas não, desta vez o que me aconteceu foi comover-me quase até às lágrimas perante a espontaneidade com que nos mostrou as suas terríveis condições de habitação. Num segundo momento, achei que a visita também poderia ter intuitos didácticos…
Este é o nosso sofá, disse ele, quando nos mostrou a casa, apontando para o degrau mínimo (cimento) em que estamos sentados

47 anos, pai de duas meninas, a juntar aos cinco que a mulher trouxe de outro casamento, vê-se em palpos de aranha para sustentar tamanha equipa.

Sem contactos, sem infraestruturas, apenas com cabecinha e uma grande visão, tenta singrar como freelancer no mundo do turismo, mas não lhe é fácil. Em cada dez turistas que me contactam, apenas um acaba por vir, confessou-nos. Ele não pode prometer-lhes as condições que Pemba não tem. (Burros, não sabem o que perdem!).

Tendo crescido com um grupo de médicos italianos, fala correntemente a língua do país da bota. Com a Sara e o Valentino por companhia, têm sido autênticas orgias da língua de Dante! Marylight estica-se toda e não perde o pé.

É altamente critico do governo (da região autónoma de Zanzibar), que não reconheceu a vitória da oposição nas ultimas eleições e por isso perdeu o apoio e os financiamentos internacionais. Então o governo tem que inventar taxas e impostos, gesticula.

Já nos serviu dois opíparos almoços e no de ontem, de repente, para abrilhantar a festa, sacou duma coluna bluetooth. Pessoalmente, teria preferido o silêncio da ilha de Misali à Shakira e amigos, mas, uma vez mais, a intenção é que conta. E confidenciou-nos que, quando conseguir juntar dinheiro, quer comprar um router, para fornecer wifi aos clientes! 

Quando chegou aqui ontem para nos levar de barco à ilha, já trazia no pêlo hora e meia de chacoalho num dhala-dhala (transportes públicos), para fazer.. 23 km... É um espectáculo, este homem!

Não pára de nos trazer prendas "do meu quintal" - canela, cravinho, maracujás... É o nosso Khamis. 

Zanzibar, Setembro 2018 - in paradisum I

“Pemba é para verdadeiros viajantes, não é para turistas”, li eu, antes de vir.
A ilha verde, assim lhe chamaram os árabes quando aqui chegaram, pela exuberância da vegetação, é a Mohéli deste arquipélago, em matéria de preservação da natureza.
As multidões ficam em Zanzibar, aqui vêm apenas os que verdadeiramente se interessam pela calma dos sítios primitivos, pelas aldeais onde apenas se fala swahili, pela natureza no seu estado puro.

No extremo oposto, há quem já tenha conseguido instalar na ilha dois resorts de super luxo, num dos quais a diária ronda os 700 euros. O outro orgulha-se dos seus exclusivìssimos quartos sub-aquáticos (onde eu nunca entraria!).
“We few, we happy few”, contentamo-nos com o nosso modesto Pemba Misali Lodge, de onde se vê o por do sol sobre o Ìndico, aonde nos chegam as ondas pequeninas que conseguem atingir aqui o fundo da Chake Bay, onde a toda a hora passam os pescadores a caminho da faina, nos seus dhows.
Se houvesse café expresso e o meu nariz não pingasse, seria perfeito. Assim, é apenas divino.