segunda-feira, 16 de maio de 2016

8o dia - atascados nos Tamarindos

Deixando Mucumbli com tanta pena, começámos o dia pelas Roças Monte Forte e Fernão Vaz.
Hoje íamos à praia do Governador, cenário, segundo algumas fontes de referência, de muitos episódios do "Equador". Já eu me preparava para imaginar os cavalos presos, testemunhas mudas dos amores adúlteros do governador e da mulher do cônsul, quando, à passagem pela praia dos Tamarindos, o nosso cavalo mecânico, que hoje era outro (longas histórias!...), se atascou na areia.
Enésimas tentativas e nada. Foi preciso o macaco e o aporte da força das duas turistas para a coisa se dar.
Meia volta e... atascou-se na água!!!!
"E por deus e por el-rei, que grande volta que eu dei", foi preciso ir à roda, e almoçar pelo caminho. Quando finalmente chegámos à praia favorita dos senhores governadores, passava das três da tarde. Mas que riiiiica banhoca (mais uma!)
No caminho, ainda passámos na Roça Fernão Dias, de cujo cais de embarque os escravos iam a pé até à Roça Rio do Ouro... para ser escolhidos. E no memorial da Ponta Fernão Dias, onde houve um campo de concentração, ligado aos acontecimentos de Batepá, em 1953. (Tantas histórias tristes...)
Amanhã voamos para o Príncipe. Lá é que parece que a internet é mesmo uma mercadoria escassíssima...

O nosso guia em S. Tomé

Não tinha muitas dúvidas de que nos agradaria. As referências eram unanimemente elogiosas (ainda por cima de franciús, gentinha esquisita)
Nasceu na roça, só na 5a classe foi para a cidade. 36 anos, casado, 2 meninas e um menino.
Simpático, discreto, correcto, bom condutor, brincalhão. Apresentou-se pontualmente à hora combinada, com o carro impecavelmente limpo, por dentro e por fora. Sabe de cor e com mais pormenores que nós o itinerário que lhe encomendámos há mais de um mês.
Traz sempre no carro dois livros de Fernando Pessoa, de que é apreciador, para os tempos mortos.
Ocupações, tem duas, que adora: mostrar orgulhosamente aos turistas o seu país. E, quando não tem clientes, dedicar-se à agricultura, no seu pedacinho de terreno. Tem-nos dado cada lição de botânica equatorial!... E nós, atarantadas, a querermos tomar nota de tudo, porque sabemos que o Tico e o Teco, na semana que vem, já nem se lembram que estiveram cá...
Em cada aldeia onde passamos, as pessoas gritam o nome dele. (É verdade que os sãotomenses são só 180 mil!...)
Hoje, quando vinha buscar-nos ao Praia Inhame (a duas horas da capital), topou com duas francesas que tinham partido a caixa de velocidades do carro alugado (...). Foi ele que telefonou para a agência delas, a intimar o envio de outro carro. E à hora do almoço, já longe dali, ligou às encrencadas, a saber se já tinha chegado. Eu devo ser muito bonzinho, dizia ele, gargalhando no seu riso largo.
Sabendo-nos com pena de não termos ainda provado o calulu (prato típico de S. Tomé que não é fácil encontrar, porque, à semelhança do nosso cozido, não é rentável fazer para pouca gente), encomendou um à mulher e levou-nos a jantar em casa dele!
Este espicho lembra-me outro parecido, de há um ano, sobre os nossos anfitriões nas Galápagos. O que só quer dizer uma coisa: somos umas privilegiadas. Ou "sorteadas", como ele dizia um destes dias :-)