Viajar, uma das três melhores coisas que há na vida! As outras duas? Não digo! Para além de que poderia escandalizar as gentes, um pouco de suspense cria sempre mais interesse...
terça-feira, 20 de setembro de 2022
Trieste, Settembre 2022 - as foibe
O Carso, a montanha que domina a zona de Trieste, é pródigo nessas aberturas.
Quando em 1945 os partidários de Tito (os italianos chamavam-lhes "i titini") chegaram a Trieste, utilizaram-nas para a sua limpeza da vingança - prendiam os fascistas, atavam-lhes os pulsos com arame e atiravam-nos lá prara dentro com uma bala na cabeça, ou, mesmo, ainda vivos.
Como se não bastasse já a barbaridade em si mesma, o conceito de fascista , a ser "infoibato", foi-se alargando... Como sempre acontece em épocas conturbadas, muitas vezes paga o justo pelo pecador...
Ainda hoje não se sabe quantos tiveram este fim e a questão continua a ser polémica - a direita tende a hipervalorizar os massacres, a esquerda chama a atenção para a perseguição que o fascismo moveu aos povos eslavos, em Trieste, nomeadamente.
Nas palavras de Cláudio Magris "Camisas negras queimaram aldeias, sumidouros do Carso escondem cadáveres ".
Não sei se é assim tão simples.
segunda-feira, 19 de setembro de 2022
Trieste, Setembro 2022 - o café, os cafés
Ou não tivesse Trieste sido governada durante tanto tempo pelos austríacos.
Os cafés históricos são um itinerário obrigatório, tanto ou mais do que em Viena. Já papámos vários.
Na cidade - que detém o recorde mundial de tráfego do café - existe até uma universidade do café!
Trieste, aliás, orgulha-se de albergar todas as actividades relativas ao café - importação / exportação, comercialização, torrefacção, descafeinização... - , à excepção da produção, claro, que isto não tem clima tropical!
Nel tutto, pontifica a familia Illy, cujo patriarca já chegou a ser presidente da câmara municipal. Cá como lá, a política e a economia gostam de brincar uma com a outra.
Actualização: Illy vai entrar em bolsa
sábado, 17 de setembro de 2022
Trieste, Setembro 2022 - a Ístria
Durante séculos, a Ístria - aquela península em forma de triângulo invertido, ao sul de Trieste - foi governada por italianos.
No final da WWII, os povos eslavos - para quem o regime de Mussolini, para dizer o mínimo, não tinha sido nada simpático - quiseram o seu quinhão de desforra.
Quando, provisoriamente, em 1947 (Tratado de paz de Paris) e definitivamente em 1954 (Memorando de Londres), a diplomacia internacional atribuiu o território à Jugoslávia, a vida tornou-se dura para os habitantes italianos da Ístria - restrições ao uso da língua, renúncia obrigatória à cidadania italiana, etc.
350 000 mil pessoas - os "esuli" - abandonaram a Ístria, com os seus pertences, em direcção a Itália, que muitos não conheciam. Excluídos na Jugoslávia, onde eram apelidados de "italianos fascistas", excluidos na Itália, onde lhes chamavam "eslavos".
Tenho a impressão de que já vi este filme mais recentemente e mais perto de mim...
Ainda hoje se acumulam, no armazém 18 do porto de Trieste, os móveis e as bagagens que nunca foram levantados. Qual Avenida 24 de Julho.
sexta-feira, 16 de setembro de 2022
Trieste, Setembro 2022 - como eu vim aqui ter
Era o ano de 2014 e eu andava às voltas com "A Batalha", na Biblioteca Nacional .
A páginas tantas, propriamente ditas, começaram a aparecer, quase diariamente, notícias sobre "a questão de Fiume"
(A questão de Fiume conta-se em meia dúzia de palavras: a Itália foi aliciada a entrar na WWI, com a promessa de que receberia varios territórios que já tinham sido seus - Tirol, Ístria, Dalmácia, etc. Quando se chegou à divisão dos despojos de guerra, o abençoado Tratado de Versalhes deu o dito por não dito, o que muito irritou os italianos em geral e D'Annunzio em particular.
O poeta agarrou nas tropas que comandava, ocupou o território de Fiume (na actual Croácia) e só de lá saiu... a mal.)
A ignorante teve que ir investigar. De Fiume passou para a Ístria e da Ístria para Trieste. Começou a ler coisas. E quando chegou a "Trieste and the meaning of nowhere", de Jan Morris (o título diz tudo!), acabou de se apaixonar pela cidade e pela sua dramática história.
De tudo o que li, o texto que melhor resume a confusa e trágica história de Trieste encontrei-o no blog do embaixador Seixas da Costa:
"Durante muito tempo, Trieste foi o porto meridional do império austríaco, com o alemão a ser a sua língua. A Itália sempre a cobiçou e viria a ocupá-la após a derrota alemã na primeira guerra mundial. Depois, foi a vez dos nazis, nos anos 40, que a utilizaram como centro para a repressão. Viria a tornar-se-ia [sic] jugoslava no termo da segunda guerra. Para ultrapassar o contínuo interesse conflitual da Itália e da Jugoslávia, os Aliados deram-lhe o estatuto de “território livre”, com a URSS e os EUA a terem sobre esse espaço uma dupla tutela, também ela sempre polémica, o que levou à sua divisão em duas zonas de ocupação militar, que se consagrariam mesmo numa partição institucional efetiva em 1954. Apenas em 1975, se encontrou uma solução, com a Jugoslávia (hoje a Eslovénia) a ter direito a territórios a leste e a Itália a fixar-se na cidade. Confuso? Deve ter sido bem mais para quem por lá vivia e foi sujeito a todas estas bolandas, sem direito a pronunciar-se sobre o seu próprio destino."
Já perceberam a(s) causa(s) da minha atracção?!
Dos duzentos e tal mil habitantes de Trieste, 80 000 (números imprecisos e talvez desactualizados) vieram da Ístria, depois da WWII. Mas isso é outra história.


