sábado, 17 de setembro de 2022

Trieste, Setembro 2022 - a Ístria


Durante séculos, a Ístria - aquela península  em forma de triângulo invertido, ao sul de Trieste - foi governada por italianos.

No final da WWII, os povos eslavos - para quem o regime de Mussolini, para dizer o mínimo,  não tinha sido nada simpático - quiseram o seu quinhão de desforra.

Quando, provisoriamente, em 1947 (Tratado de paz de Paris) e definitivamente em 1954 (Memorando de Londres), a diplomacia internacional atribuiu o território à Jugoslávia, a vida tornou-se dura para os habitantes italianos da Ístria - restrições ao uso da língua, renúncia obrigatória à cidadania italiana, etc.

350 000 mil pessoas - os "esuli" -  abandonaram a Ístria, com os seus pertences, em direcção a Itália,  que muitos não conheciam. Excluídos na Jugoslávia, onde eram apelidados de "italianos fascistas", excluidos na Itália,  onde lhes chamavam "eslavos".

Tenho a impressão de que já vi este filme mais recentemente e mais perto de mim...

Ainda hoje se acumulam, no armazém 18 do porto de Trieste, os móveis e as bagagens que nunca foram levantados. Qual Avenida 24 de Julho.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Trieste, Setembro 2022 - como eu vim aqui ter

 


Era o ano de 2014 e eu andava às voltas com "A Batalha", na Biblioteca Nacional .
A páginas tantas, propriamente ditas, começaram a aparecer, quase diariamente, notícias sobre "a questão de Fiume"

(A questão de Fiume conta-se em meia dúzia de palavras: a Itália foi aliciada a entrar na WWI, com a promessa de que receberia varios territórios que já tinham sido seus - Tirol,  Ístria, Dalmácia, etc. Quando se chegou à divisão dos despojos de guerra, o abençoado Tratado de Versalhes deu o dito por não dito, o que muito irritou os italianos em geral e D'Annunzio em particular.
O poeta agarrou nas tropas que comandava, ocupou o território de Fiume (na actual Croácia) e só de lá saiu... a mal.)


A ignorante teve que ir investigar. De Fiume passou para a Ístria e da Ístria para Trieste. Começou a ler coisas. E quando chegou a "Trieste and the meaning of nowhere", de Jan Morris (o título diz tudo!), acabou de se apaixonar pela cidade e pela sua dramática história. 

De tudo o que li, o texto que melhor resume a confusa e trágica história de Trieste encontrei-o no blog do embaixador Seixas da Costa:

"Durante muito tempo, Trieste foi o porto meridional do império austríaco, com o alemão a ser a sua língua. A Itália sempre a cobiçou e viria a ocupá-la após a derrota alemã na primeira guerra mundial. Depois, foi a vez dos nazis, nos anos 40, que a utilizaram como centro para a repressão. Viria a tornar-se-ia [sic] jugoslava no termo da segunda guerra. Para ultrapassar o contínuo interesse conflitual da Itália e da Jugoslávia, os Aliados deram-lhe o estatuto de “território livre”, com a URSS e os EUA a terem sobre esse espaço uma dupla tutela, também ela sempre polémica, o que levou à sua divisão em duas zonas de ocupação militar, que se consagrariam mesmo numa partição institucional efetiva em 1954. Apenas em 1975, se encontrou uma solução, com a Jugoslávia (hoje a Eslovénia) a ter direito a territórios a leste e a Itália a fixar-se na cidade. Confuso? Deve ter sido bem mais para quem por lá vivia e foi sujeito a todas estas bolandas, sem direito a pronunciar-se sobre o seu próprio destino."

 

Já perceberam a(s) causa(s) da minha atracção?!

Dos duzentos e tal mil habitantes de Trieste, 80 000 (números imprecisos e talvez desactualizados) vieram da Ístria, depois da WWII. Mas isso é outra história.

sábado, 21 de novembro de 2020

E qué?!

 O tempo não vai para planos, mas eu já estou a fazê-los. "Vivan los sueños que nunca despertaron"



sábado, 14 de novembro de 2020

Sicilia, Setembro 2020 - apontamentos de reportagem

Trinacria, o símbolo da Sicília

A placa, no criativíssimo banco, dizia "Together we can"(?!). O certo é que eu, morta de cansaço, ia para me deitar ao comprido e não pude! (Siracusa)
Actualização: este modelo de banco destina-se a integrar pessoas em cadeira de rodas. Mea culpa...

A difícil vida de um emigrante africano, na praia de Fontane Bianche (Siracusa)

Cada um é libertino da maneira que pode ou quer (Noto)

Um cheirinho de street art (Ragusa)

Entre igrejas e conventos, eu contei onze, só nesta direcção! (Piazza Armerina)

A senhora da limpeza, acrescentando uns acessórios aos mosaicos romanos (Villa del Casale, Piazza Armerina)

Oliveira com  osteoporose (Vale dos Templos, Agrigento)

Os gatos de Agrigento. Aos milhares

A curiosa antroponímia siciliana :)

Todas as estratégias são boas para atrair os turistas às lojas de souvenirs

O típico carretto siciliano, que agora já só é usado para fins de promoção turística


Por toda a parte, a homenagem aos que se atravessaram no caminho da Mafia


Com pena o digo, mas na Sicília há muito lixo. Não é que, infelizmente, não se pudesse fazer uma foto destas numa das nossas cidades. Mas lá, é por toda a parte, até nos campos

Carro alegórico, construído para a festa de Santa Rosalía, padroeira de Palermo
   
Os minúsculos vigilantes do Etna, vistos do teleférico

As inacreditáveis "estradas" por onde o GPS nos metia...

O que sistematicamente me era apresentado, quando eu pedia um caffè lungo

Viajei com um artista, que não resistia a "exercer", sobre os restos das refeições


O artista também era santo. Aqui, fornecendo água à máquina de lavar roupa, que a não puxava em condições, para lavar as minhas t-shirts


Nota final - o património da Sicília é tão vasto e tão rico, que seria estultícia da minha parte pôr-me aqui a publicar fotos e informação, quando os há com fartura, e alguns tão bons, na internet.

Vim ainda mais apaixonada por aquela ilha!


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Sicília, Setembro 2020 - as varandas barrocas

 1693 está para a Sicília (sobretudo a Sicília oriental) como 1755 está para Lisboa. Escaqueirou-se tudo!

As cidades foram reconstruídas no estilo da época, barroco tardio, o que, na pedra local, produziu maravilhas.

Nas cidades sicilianas, é impossível não andar sempre de nariz no ar, para apreciar as omnipresentes e lindíssimas varandas barrocas.

 

Noto, palácio não identificado

Modica, Palazzo Tomaso Rossi Tedeschi

Modica, palácio não identificado

Modica, palácio não identificado

Palazzolo Acreide, palácio não identificado

Palazzolo Acreide, palácio não identificado

Palazzolo Acreide, Palazzo Caruso, a varanda barroca mais longa da Europa (adoro estes recordes...) e alguns detalhes da mesma :





Acireale, Palazzo Modò

Acireale, Palazzo Modò

Noto, Palazzo Nicolaci (as minhas favoritas!) :







Sicília, Setembro 2020 - "teste di moro"

 O modo acelerado em que foi vivida a minha anterior passagem pela Sicília (e no entanto foram três semanas!), não me permitiu identificar certas manifestações locais - artísticas, gastronómicas, etc - que, por isso mesmo, agora apreciei ainda mais.

Uma delas foram as "teste di moro" (cabeças de mouro), produção cerâmica baseada numa antiga lenda, de que há várias versões. (Em poucas palavras - uma jovem palermitana, apaixonada por um árabe, descobriu que ele a atraiçoava. Não fez a coisa por menos - quando o apanhou a dormir, cortou-lhe a cabeça, da qual fez um vaso para plantas [blaaargh!])

Umas de soberbo bom gosto, outras nem tanto (conforme as regiões), grandes, pequenas, adaptadas às circunstâncias actuais, nas varandas, nas montras, estão presentes em toda a ilha.