segunda-feira, 16 de maio de 2016

O nosso guia em S. Tomé

Não tinha muitas dúvidas de que nos agradaria. As referências eram unanimemente elogiosas (ainda por cima de franciús, gentinha esquisita)
Nasceu na roça, só na 5a classe foi para a cidade. 36 anos, casado, 2 meninas e um menino.
Simpático, discreto, correcto, bom condutor, brincalhão. Apresentou-se pontualmente à hora combinada, com o carro impecavelmente limpo, por dentro e por fora. Sabe de cor e com mais pormenores que nós o itinerário que lhe encomendámos há mais de um mês.
Traz sempre no carro dois livros de Fernando Pessoa, de que é apreciador, para os tempos mortos.
Ocupações, tem duas, que adora: mostrar orgulhosamente aos turistas o seu país. E, quando não tem clientes, dedicar-se à agricultura, no seu pedacinho de terreno. Tem-nos dado cada lição de botânica equatorial!... E nós, atarantadas, a querermos tomar nota de tudo, porque sabemos que o Tico e o Teco, na semana que vem, já nem se lembram que estiveram cá...
Em cada aldeia onde passamos, as pessoas gritam o nome dele. (É verdade que os sãotomenses são só 180 mil!...)
Hoje, quando vinha buscar-nos ao Praia Inhame (a duas horas da capital), topou com duas francesas que tinham partido a caixa de velocidades do carro alugado (...). Foi ele que telefonou para a agência delas, a intimar o envio de outro carro. E à hora do almoço, já longe dali, ligou às encrencadas, a saber se já tinha chegado. Eu devo ser muito bonzinho, dizia ele, gargalhando no seu riso largo.
Sabendo-nos com pena de não termos ainda provado o calulu (prato típico de S. Tomé que não é fácil encontrar, porque, à semelhança do nosso cozido, não é rentável fazer para pouca gente), encomendou um à mulher e levou-nos a jantar em casa dele!
Este espicho lembra-me outro parecido, de há um ano, sobre os nossos anfitriões nas Galápagos. O que só quer dizer uma coisa: somos umas privilegiadas. Ou "sorteadas", como ele dizia um destes dias :-)

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